sábado, 30 de janeiro de 2010

"Entrevista: Jerome Kagan - Edição 2150 - Revista VEJA"

O psicólogo que passou meio século estudando o desenvolvimento infantil diz que a mãe não é mais influente do que o pai e alerta para o erro de tentar suprimir a ansiedade"

Entrevista: Jerome Kagan

A ansiedade pode ser boa



O psicólogo que passou meio século estudando o

desenvolvimento
infantil diz que a mãe não é mais influente

do que o pai
e alerta para o erro de tentar suprimir a ansiedade




André Petry, de Boston



Jerome Kagan, um dos grandes psicólogos do século
XX, está de volta à moda. Em cinquenta anos de pesquisas sobre
o desenvolvimento infantil, Kagan dedicou-se ao estudo da ansiedade, e, quanto
mais a doença aparece na sociedade moderna, mais atenção
seu trabalho ganha. Aos 80 anos (parecem 65), ele joga tênis três
vezes por semana e, mesmo aposentado desde 2000, segue batendo ponto no seu
escritório na Universidade Harvard e mantém a língua afiada
de sempre. Nesta entrevista a VEJA, durante a qual psicanaliticamente fumou
cachimbo, ele critica pediatras e obstetras, diz que Freud disseminou o equívoco
de que a ansiedade é ruim e - para alívio das mães e festa
das feministas - afirma que a mãe não é mais influente
do que o pai na criação dos filhos.



Estamos vivendo a "era da ansiedade"? A incidência
hoje não é maior do que era ontem. No século XVI, a ansiedade
vinha do risco de morrer antes dos 35 anos de doença infecciosa, ser
assaltado na beira da estrada entre uma cidade e outra, ofender Deus e ir para
o purgatório. Hoje, estamos ansiosos em relação a coisas
diferentes, como status social, sucesso profissional, relação
com amigos e cônjuges. O que determina a frequência e a intensidade
da ansiedade são os genes, e os genes não mudaram do século
XVI para cá. Mas o que determina o alvo da ansiedade é a cultura,
e isso mudou.



A ansiedade é ruim? Desde que Freud disse que todas
as neuroses vêm da ansiedade, passamos a ter um entendimento cultural
de que a ansiedade é uma coisa tóxica. Não é. Todos
nós somos ansiosos. Faz parte da condição humana, como
ficar cansado, errar, sentir-se culpado, frustrado ou envergonhado. Não
existe civilização em que ninguém fica ansioso. A ansiedade
tem vantagens. As pessoas ansiosas são muito responsáveis e conscientes.
Quando eu selecionava meus ajudantes de pesquisa, sempre que possível
optava por jovens ansiosos, tímidos e introvertidos, porque eles trabalham
com afinco e erram menos. Há pessoas ansiosas simplesmente brilhantes.



Albert Einstein era ansioso? Pela biografia dele, eu diria
que não, mas T.S. Eliot era seguramente ansioso e ganhou o Nobel de Literatura
em 1948. O matemático Paul Dirac era extremamente ansioso e também
ganhou o Nobel de Física em 1933. Uma pessoa pode ser intensamente ansiosa,
mas, se ela consegue trabalhar, relacionar-se no casamento, cumprir seu papel
de pai ou mãe, não há problema. A ansiedade será
um problema se atingir um estágio clínico, no qual vira doença,
a superansiedade. Do contrário, só será problema para quem
acha que é um problema. Conheço indivíduos altamente ansiosos
que não interpretam sua condição como problema. Entendem
que a vida é assim mesmo e estão satisfeitos.



De onde vem a superansiedade? Há dois argumentos.
Os biólogos evolucionários dizem que a existência de 
hipervigilantes entre membros de nossa espécie foi decisiva na luta contra
os predadores. Sob esse ponto de vista, portanto, a ansiedade foi uma vantagem
adaptativa. O argumento contrário deriva da tese de Stephen Jay Gould (paleontólogo americano, 1941-2002) segundo a qual nem todas as
mutações são úteis e positivas. Algumas são
simplesmente subprodutos da evolução. O queixo é um exemplo.
Ele não traz em si nenhuma vantagem adaptativa. O queixo existe como
consequência arquitetônica do desenho da boca, esta sim uma solução
evolutiva útil. A natureza simplesmente não saberia como construir
uma boca como a nossa sem criar como subproduto o queixo. A tese de Gould pode
ser aplicada à superansiedade. Ela seria um subproduto, uma sobra de
algum outro arranjo genético positivo. Não sei qual dos dois argumentos
é o mais correto, mas ambos fazem sentido.



Em meio século de estudos, o que lhe parece mais decisivo
no desenvolvimento infantil?
Duas coisas. Uma é que, nos primeiros
dezoito ou vinte anos, vivemos verdadeiros estágios de maturação.
Os dois primeiros anos são um estágio. De 2 a 5, outro estágio.
De 5 a 7, outro. E, quando passamos de um estágio ao outro, parte do
que ocorreu antes desaparece sem deixar vestígios. Não carregamos
toda a bagagem conosco. As experiências da primeira infância simplesmente
somem, são transformadas ou eliminadas. Antes, pensava-se que não
perdíamos nada, que tudo ficava registrado. Não é verdade.
A outra coisa é que a natureza humana é como uma cebola. Trocamos
as camadas externas com facilidade. São as crenças, o comportamento.
As camadas internas, mais próximas do centro, são difíceis
de mudar. São os sentimentos, a ansiedade, a raiva, o orgulho. Carl Jung (psiquiatra suíço, 1875-1961) entendeu isso com seu conceito
de "persona" e "anima". "Persona" é a camada
externa, é o que nós vemos um no outro. "Anima" é
o que está dentro da cebola, e nós não vemos.



A biologia é destino? Depende. Há doenças,
pouquíssimas doenças, que quase certamente vão se desenvolver
em quem tiver determinados genes. É o caso de Huntington (doença
degenerativa do sistema nervoso central).
Felizmente, menos de 1% da população
tem os genes de Huntington. No outro extremo, há doenças, muitas
doenças, que só se desenvolverão, mesmo em quem tiver os
genes errados, caso numerosos fatores externos se combinem para deflagrar a
moléstia. São muitas as pessoas com esses genes, mas é
provável que nunca tenham as doenças. Portanto, a resposta é
não: biologia não é destino.



Pais ansiosos terão filhos ansiosos? Se a ansiedade
dos pais decorre de uma característica de sua natureza, a probabilidade
de que seus filhos sejam ansiosos é um pouco mais alta. Isso porque estamos
falando de hereditariedade. Mas, se a ansiedade dos pais tiver origem no ambiente,
no meio em que vivem, a possibilidade de passar a ansiedade para os filhos será
menor.


Qual a influência dos pais sobre o temperamento dos filhos? No caso do temperamento que tem origem genética, os pais podem ajudar
a mudar o comportamento, ou seja, a forma como esse temperamento se manifesta.
Eles podem ajudar seu filho a reduzir ou silenciar a intensidade com que o temperamento
aparece, mas a vulnerabilidade estará sempre lá. Na minha pesquisa
com bebês, há dois casos muito evidentes. (A pesquisa começou
em 1986, com 500 bebês, dos quais 20% se revelaram inibidos e ansiosos,
e são acompanhados até hoje por seguidores e Kagan.)
Uma das
garotinhas pesquisadas, a quem chamamos de Mary, vem de uma família que
lhe dá muito apoio e incentivo. Hoje, aos 24 anos, Mary está na
faculdade e vai muito bem. Outra pesquisada, Baby 19, veio de uma família
de pais divorciados e está tendo muitos problemas. As duas, Mary e Baby
19, têm o mesmo temperamento, mas as famílias fizeram a diferença.



O nível educacional e a classe social dos pais têm
muita influência sobre o futuro dos filhos?
Tem mais influência
do que a genética. O melhor indicador de doença mental, de qualquer
doença mental, é a classe social, e não os genes. Por hipótese,
suponhamos que há um grupo de 1 000 bebês lá fora. Você
e eu vamos pesquisá-los para determinar quais bebês poderão
estar sofrendo de depressão aos 30 anos de idade. Você só
pode examinar os genes dos bebês. Eu só posso examinar a educação
e o nível de renda dos pais dos bebês. Meu resultado será
mais exato do que o seu. Os que ocupam o topo da pirâmide social, em termos
de educação, trabalho e renda, têm menos doença mental,
vivem sete anos a mais e seus filhos são mais saudáveis. Em resumo,
são pessoas mais felizes.



O amor da mãe é condição necessária
para a saúde mental da criança no futuro?
É conversa
fiada. As crianças tomam consciência de si mesmas por volta dos
2 anos de idade. Quando isso acontece, a criança, para crescer mentalmente
saudável, precisa acreditar que pelo menos um dos pais a valoriza. Pode
ser a mãe ou o pai, não necessariamente a mãe. Observe:
eu usei o verbo valorizar, não o verbo amar. A criança precisa
se sentir valorizada. Na cultura escandinava, os pais não beijam nem
abraçam os filhos, nem dizem "eu te amo". Mas estão
sempre reforçando nos filhos a ideia de que eles são valorizados.



Beijar e abraçar o filho não faz diferença? Depende da interpretação e do contexto cultural da criança.
Uma criança que cresce no Brasil talvez não acredite no amor de
seus pais caso eles não a abracem e beijem. Mas não é a
mesma coisa na Escandinávia. Há anos, tive um aluno, filho de
mexicanos, criado na Califórnia. Não conhecia a Nova Inglaterra
até se matricular em Harvard. Quando completou seu primeiro ano aqui,
perguntei o que lhe havia chamado mais atenção. Ele riu e disse:
"É estranho que os pais dos meus colegas venham visitá-los
e não deem um abraço nem um beijo nos filhos". É cultural.
Ele, filho de mexicanos, de origem latina, não entendia a indiferença
física. As famílias da Nova Inglaterra não beijam nem abraçam
seus filhos, mas os filhos sabem que os pais os valorizam.



O pediatra Berry Brazelton diz que a presença e o amor
dos pais são fundamentais para criar crianças saudáveis
e seguras. Ele está errado?
Brazelton não está errado,
mas os pediatras exageram o papel da afeição no primeiro ano de
vida. Claro que os pais têm importância. Agora, é preciso
entender que a criança que tem laços com seus pais está
mais inclinada a fazer o que os pais querem que ela faça do que a criança
que não tem os mesmos laços. É um contrato. A criança
recebe carinho e afeição e, em troca, dá o que lhe pedem.
Mas suponhamos que um pai carinhoso e amoroso queira que sua filha, em pleno
século XXI, cresça como uma menina do século XIX, sem pensamentos
de natureza sexual, calada e conformada. Isso será bom para a filha quando
tiver 20 anos? Não. Portanto, se os pais usam os laços afetivos
a serviço de bons valores, ótimo para a criança e seu futuro.
No caso de valores inadequados, seria preferível que os laços
não existissem. É disso que Brazelton não fala.



Não seria porque partimos do princípio de que
os pais fazem o melhor para seus filhos?
Mas essa é uma premissa
errada. Os pais às vezes promovem valores errados. Em O Caçador
de Pipas,
Baba, o pai, amava seu filho Amir, mas queria que fosse um bravo,
um valente, e não um escritor. O resultado foi que, com todo o amor,
Baba criou um filho ansioso e que se sentia rejeitado pelo pai. Então,
o amor funciona quando os pais promovem valores que servem para a criança
no futuro.


No início da vida da criança, o pai e a mãe
são igualmente significativos?
Se a cultura disser que são,
então eles serão. Mas a nossa cultura não diz isso. Ela
nos diz que a mãe tem de amar seu filho. Nas últimas linhas de Narciso e Goldmundo, de Hermann Hesse, Goldmundo está morrendo
nos braços de Narciso e então diz: "Mas como poderás
morrer, Narciso, se não tens mãe? Sem mãe, não se
pode amar. Sem mãe, não se pode morrer". Essa é a
visão ocidental. É, de novo, uma questão cultural. Na Europa
renascentista, o pai era considerado mais vital do que a mãe. Michel
de Montaigne (escritor e ensaísta francês do século XVI)
escreveu que o pai era a força mais relevante, pois a mãe era
exageradamente emocional. O ideal, dizia Montaigne, era afastar logo a criança
da mãe "e usar uma cabra para amamentá-la".



Todo casal hoje valoriza e registra em vídeo o momento
em que o obstetra entrega o bebê nos braços da mãe assim
que nasce...
Bobagem. Isso parece bruxaria.  


Mas a mãe amamentar o filho pele com pele também
é dispensável?
Isso não. Além de a amamentação
ser recomendável, o contato do bebê com a pele da mãe traz
benefícios para a saúde de ambos. Falamos da pele da mãe
apenas porque o pai não amamenta. Se amamentasse, podia ser a pele do
pai.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

17 anos de "http://www."

Foi uma emoção muito grande quando surgiu na tela do computador aquele "html", um hipertexto perfeito, muito bem bolado, que eu até apre(e)ndi na época, e editei minha primeira homepage, que eu não sei mais por onde anda: LDSC-Laboratório de Detectores Semicondutores.
Hoje é multilinguagem, estruturado, 'inteligente'.
Mas o que me trouxe aqui, foi a ligação da internet com o texto de filosofia que eu li a pouco:
Adorno, a indústria cultural e a internet
Há quarenta anos morria o filósofo da Escola de Frankfurt que se tornou famoso por sua crítica aos meios de comunicação de massa
POR SERGIO AMARAL SILVA * http://filosofia.uol.com.br/filosofia/ideologia-sabedoria/20/artigo151970-1.asp

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Primeiro dia do ano

Nada aconteceu até agora de diferente mas fica a esperança de que dias e anos melhores virão.