domingo, 13 de fevereiro de 2011

Pérolas

Data do arquivo: 05/05/1997 JUJU: NO SINGULAR, NO PLURAL José Ribamar Bessa Freire Qual é o plural de Juju? A primeira vez que tia Lucinda me fez essa pergunta, há mais de 40 anos, não pude responder. Achei esquisito. Juju, para mim, só havia uma: era Juliana, mais que uma prima, uma irmã. Alguns anos mais vivida do que eu, exercia, na infância, uma influência tão grande sobre nós, que fazia a gente "virar casaca" em questões de vida ou morte, como foi o caso do concorrido concurso de miss Amazonas de 1956. A disputa acirrada entre Anete Stone e Auxiliadora pelo título da mais bela amazonense rachou Manaus ao meio. As torcidas se agrediam a tapas, pontapés, puxões-de-cabelo e dentadas. Apesar disso, troquei de candidata para ficar do mesmo lado de minha prima. Ela era, sem sombra de dúvida, nossa mentora intelectual. Por isso, quando tia Lucinda insistiu: "Como se faz o plural de Juju", eu pensei: "E Juju lá tem plural! Juju é singular. É única". Foi nessa época que Juju andou botando minhocas metafísicas na minha cabeça, provocando inquietações e angústias existenciais das quais jamais me libertaria. Conto o caso como o caso foi. Uma bela manhã, ela chegou em casa. Veio "passar o dia". "Passar o dia" era um costume, hoje em extinção, muito usado no tempo em que as pessoas ainda se visitavam. Com uma muda de roupa, você ia de manhã cedo para a casa de um tio, brincava com os primos, merendava, almoçava, remerendava, tomava banho e jantava por lá, só retornando quando começava a escurecer. Neste dia, na hora da despedida, olhando o céu estrelado, perguntei: - Se pegar um avião e viajar, quanto tempo levo para chegar no telhado do céu? - Nunca. O espaço celeste é infinito. Nem toda a eternidade basta para encontrar seu começo ou seu fim. Ele não tem fim, falou Juju. Foi um soco seco e direto na minha inteligência. Fiquei arrasado com a revelação. A idéia de um buraco sem fundo deixou-me deprimido. O peso da eternidade e do infinito oprimiu o meu coração. Se conviver com esses dois conceitos, hoje, já é complicado, imagine só quando criança! Senti-me um merdinha de nada, um cisco de pó. Filosoficamente, acabava de ser desvirginado. No entanto, tia Lucinda insistia que para fazer o plural correto de Juju bastava seguir a mesma regra aplicada às palavras jóia, pedra, joelho, coruja e pulga. Mas afinal, quem era tia Lucinda? Tia, de verdade, de sangue, ela não era. Nós é que a chamávamos assim. Morava com sua irmã, a tia Lili, num palacete da rua Alexandre Amorim, construído pelo pai, o velho Félix Azevedo, rico exportador de borracha. As duas irmãs aprenderam a falar francês como língua materna, tocavam piano, visitaram os museus da Europa, e chamavam, na maior intimidade, o pintor Gauguin, de Gô. O preço da borracha caiu assustadoramente, o velho Azevedo morreu e as duas irmãs, solteironas, tiveram que dar aula particular de francês para sobreviver na mansão herdada. Com elas aprendemos que Juju, em francês, se escreve joujou e significa brinquedo, na linguagem infantil. Que se faz o plural das palavras bijou, caillou, genou, hibou, pou e joujou acrescentando apenas um "x", no final da palavra. Quando o mês agosto se despedia, abrindo espaço para a revoada dos cupins de setembro, Juliana, minha prima singular, morreu. No seu enterro, no Cemitério Parque da Colina, descobri o plural de Juju ao ver sua filha de 17 anos, bela e inteligente, também Juliana, talvez a Juliana que a Juju gostaria de ter sido, eterna, infinita. Uma Juju fenece, outra floresce. A vida continua. Ninguém morre no plural. -------------------------------------------- Data do arquivo: 23/09/1997 Oi Dodora. Tudo bem? Estava lendo um mail da Marelisa. Nele ela fala da recuperação do Zeugusto etc, etc. No final ela fala de um artigo que o Tio Manel escreveu no "A Crítica" sobre a Juliana e que te mandou fax. Quando a gente se falar ao vivo ou telefone, me lembras de pegar uma cópia contigo? Tchau Eduardo