Por Márcio Castilho
Na aquisição de um computador,
um telefone ou qualquer
eletrodoméstico, a pergunta
do cliente é praticamente obrigatória ao
vendedor da loja: “qual o tempo de garantia
do produto?” Os certifi cados que acompanham
as notas fi scais e os manuais de
instrução não fi cam mais esquecidos em algum
lugar. Perdê-los pode signifi car dor de
cabeça e um grande prejuízo no bolso em
um mercado no qual os bens de consumo
são fabricados para durar cada vez menos.
Saudosismo extremado de quem não
troca seu “velho” celular de dois anos atrás
pelos sedutores modelos com bluetooth
(especifi cação industrial para áreas de redes
pessoais sem fi o) ou percepção de que os
cidadãos que resistem a ingressar nesta era
do BlackBerry (aparelhos com funções de
editor de textos, acesso à Internet, e-mail e
tecnologia IPv6) podem se tornar obsoletos
pelo avanço da tecnologia?
Essas questões da contemporaneidade
permeiam o pensamento do teórico
espanhol radicado na Colômbia Jesús
Martín-Barbero, uma referência na linha
dos estudos culturais na América Latina.
No início de setembro, quando esteve no
Rio para ministrar disciplina aos estudantes
do Programa de Pós-graduação da
Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ,
Barbero concedeu entrevista exclusiva ao
Jornal da UFRJ em que refl etiu acerca do
sistema econômico e o papel dos meios de
comunicação. Mais do que fazer grandes
generalizações, o professor da Universidade
de Guadalajara, no México, indica
caminhos que renovam os estudos sobre
a trama de mediações que a relação entre
comunicação, cultura e política articula na
sociedade.
Barbero afirma que a modernidade
promove uma nova relação de tempo que
em nada se assemelha com as representações
de um tempo cíclico, como ocorria no
passado. Hoje o teórico percebe uma nova
temporalidade baseada na “obsolescência
acelerada” dos bens de consumo e das
próprias instituições. Segundo o acadêmico,
o sistema econômico e os meios de comunicação
são os grandes fabricantes desse
tempo presente, oferecendo ao público uma
novidade cada vez mais efêmera. Enquanto
que, no passado, os produtos eram fabricados
no sentido da longa duração, a lógica
atual do mercado trabalha sem perspectiva
de futuro, levando as pessoas a trocarem
constantemente de carro, computador e
telefone. “O que permite ao sistema funcionar
é a obsolescência acelerada. As coisas
são fabricadas para durar um determinado
tempo. Em alguns casos, o mínimo possível.
Se nós não trocamos de produtos, o sistema
se paralisa”, afi rma o teórico espanhol.
Em seu livro “Dos meios às mediações:
comunicação, cultura e hegemonia”, publicado
no Brasil pela Editora UFRJ (2001),
Barbero já salientava a impossibilidade
de o mercado promover vínculos entre
os sujeitos, pois “opera anonimamente
mediante lógicas de valor que implicam
trocas puramente formais, associações e
promessas evanescentes que somente engendram
satisfações ou frustrações, nunca,
porém, sentido”. O autor complementa
que os meios de comunicação de massa,
como outro poderoso fabricante do tempo
presente, contribuem para agravar essa
transformação na sociedade. Isso porque
os veículos jornalísticos tendem a lidar com
a informação mais por razões econômicas
(audiência) do que propriamente pelo seu
valor em termos de interesse público. Afi rma
Barbero ao Jornal da UFRJ: “a notícia que durava um mês, uma semana, atualmente
dura nem sequer um dia, porque não
é o valor interno do fato que importa, mas
o seu valor noticioso, um valor agregado
pelo meio. Não valorizamos a notícia pelo
número de pessoas que afeta ou em que
profundidade afeta. Aqui estamos ante ao
que eu chamaria de uma perversão”.
O intelectual utiliza o termo “perversão”
por considerar a informação matéria-prima
para a cidadania. No entanto - prossegue
Barbero -, diante da tendência dos jornais
impressos em competir com a web, não fornecendo
elementos sufi cientes para a compreensão
dos acontecimentos cotidianos, os
meios massivos perdem a sua capacidade
de formular debates capazes de fortalecer a
sociedade civil. Esse fenômeno gera o que
o autor chama de uma “sociedade autista”
que não se conecta com nada e que não tem
o mínimo de memória.
Lutas e negociações
Apesar da força do sistema econômico,
que opera na lógica da rentabilidade em
detrimento da construção de uma rede
de solidariedade social, e da visão crítica
em relação ao papel dos media, Barbero
acredita no poder da comunicação como
espaço estratégico de construção da cidadania.
Discordando da idéia de futuro como
repetição do presente, em uma crítica ao
radical pessimismo de Francis Fukuyama
em O fi m da história (Rocco, 1992), o teórico
enfatiza a existência de um espaço de
luta e de intervenção social contribuindo
para a criação de uma “institucionalidade
nova”. Essas novas redes de solidariedade
estão presentes, segundo ele, nas emissoras
de rádio e de televisão comunitárias, nas
manifestações artísticas que expressam a
pluralidade das culturas
populares, como os grafi -
teiros, na música jovem,
através do rock e do rap, ou
nos movimentos sociais.
Atento a “novos sentidos
do social e novos usos
sociais dos meios”, Barbero
defende um deslocamento
metodológico no sentido
de valorizar o papel do
outro, do receptor como
sujeito ativo no processo
comunicacional. “Não podemos arbitrariamente
dizer que somente uns poucos
podem fazer e os demais, apenas consumir.
Sabemos que nem todo mundo nasceu para
ser artista, mas todo mundo pode fazer algo,
desde que se criem condições para isso. O
problema é que os governos não fazem
políticas de Estado, de médio e de longo
prazos. Se não há um mínimo de prazo, a
política vira puro marketing. Vendo a meus
eleitores uma coisa que não vou poder dar
um dia. Esse não é somente um problema
latino-americano ou terceiro-mundista. Na
Europa é igual. Os políticos são, em geral,
imediatistas”, observa Martín-Barbero.
TV Pública e o papel das universidades
Ainda acerca da potencialidade dos
meios de comunicação como instrumento
de fortalecimento da
cidadania, Barbero acredita
que a experiência
da TV Pública pode ser
positiva no sentido de
refazer os vínculos societários.
Ressalta, no entanto,
que sua implantação
não deve prescindir de
um vigoroso debate que
incorpore demandas do
público. A busca de novos
conteúdos que valorizem
a participação dos telespectadores é
necessária - afi rma o teórico -, para transformar
a TV Pública em uma rede voltada
aos interesses da comunidade, evitando,
assim, tentativas de manipulação por parte
de governos e partidos.
“Pensar não haver nenhum tipo de
dependência de partidos que estão no governo
é idealismo absoluto. Mas defendo
um projeto que permita incorporar, pouco
a pouco, os meios comunitários para que
essas produções sejam inseridas na televisão
pública. É preciso qualidade, mas não qualidade
puramente técnica ou estética, mas de
conteúdo também, que não seja excludente,
elitista, populista tampouco. Creio que é um
projeto muito difícil, muito delicado e que
vai necessitar tempo”, observa o professor.
Jesús Martín-Barbero nasceu em Ávila,
na Espanha, mas reside na Colômbia desde
1963. Foi professor visitante da Cátedra
Unesco de Comunicação na Universidade
Autônoma de Barcelona, na Universidade
Puerto Rico, na Universidade
de São Paulo (USP) e na Escola Nacional
de Antropologia do México. O professor
destaca a importância de as Instituições
de Ensino Superior resgatarem o sentido
da universalidade. Para ele, o modelo
letrado das universidades é excludente
e não se comunica com o restante da
sociedade.
“A universidade poderia estender-se
mais sobre a sociedade, porque tem linguagem
limitadíssima. Fundamentalmente
é letrada, mas a maioria das pessoas não
o é. São visuais, gestuais. A universidade
tem que comunicar - e se comunicar é atuar
com todas as culturas que não cabem na
universidade. Se não é assim, a universidade
vai morrendo, porque a sociedade vai
para outro lado”, afirma o teórico.
Copiado e colado do Jornal da UFRJ
http://www.ufrj.br/docs/jornal/2008-novembro_jornalUFRJ39.pdf
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