
“A origem dos vírus desta gripe que vem sendo divulgada pela mídia como gripe suína provavelmente se deve à manutenção desses organismos na natureza por meio de infecções transmitidas, triangularmente, entre aves-porcos-pessoas.
Os vírus das gripes são arranjos moleculares fabricados por células vivas. Na composição química desses organismos encontram-se: ácido nucleico, proteína, gordura e açúcares. A estrutura viral serve como elemento para transferência de ácido nucleico de uma célula para outra. Esses ácidos carregam as informações genéticas que as células usam para fabricar os diversos componentes que vão servir para montagem de novos vírus. Quando as células os fabricam, dizemos que elas são competentes, pois existem células que não têm a competência metabólica para sintetizar os componentes codificados no genoma viral (ácido nucleico). Quando as células estão fazendo vírus, dizemos que estão infectadas.
A infecção viral aparece no local do corpo onde existem as células competentes. No caso da gripe, entendemos como células competentes aquelas células de mucosa que estão associadas com uma população de células bacterianas produtoras de um tipo especial de protease. Por isso dizemos que gripe é fruto de uma associação mórbida envolvendo os vírus e as bactérias da nossa microbiota. Por esse motivo, toda gripe compromete apenas áreas de mucosa. As proteases bacterianas são as enzimas que completam a montagem dos vírus fabricados pelas células do nosso epitélio, tornando-os infecciosos. Sem essa associação não há gripe, pois a infecção não avança pela mucosa. O interessante é que a área lesionada vai ser proporcional à quantidade de células competentes que cada indivíduo tem no corpo. A seleção natural das espécies (lembrando as homenagens aos 200 anos de Charles Darwin) tem proporcionado a sobrevivência daqueles que têm poucas. Dessa forma, pessoas com poucas dessas células tendem a desenvolver a infecção viral sem sintomas. Denominamos o fenômeno ‘infecção inaparente’. Embora sem sintomas, são essas pessoas ou animais os principais disseminadores da virose. As estatísticas epidêmicas mostram que, em média, para cada 10 infectados, existe um com sintomas, ou seja, aquela pessoa que tem maior quantidade das células competentes. Portanto, podemos partir para a seguinte dedução lógica: aquele que possui maior competência terá maior comprometimento celular e tecidual com a virose. Quanto maior a lesão, maior a gravidade, podendo chegar, inclusive, à morte.
Uma gripe será sempre uma gripe. Toda pessoa adulta sabe como é, pois já teve pelo menos uma. A situação de risco está relacionada com a gravidade. Como os casos sintomáticos estão acompanhados de diminuição da vitalidade corporal, se a gripe acontece numa pessoa que já tem certa debilidade instalada, o resultante é a franqueza geral. Quanto mais fraco, mais risco de morte. Portanto, em cada indivíduo, a evolução de uma gripe depende das condições genéticas e fisiológicas que ele possui. Nossa sorte é que somos descendentes de genitores que resistiram às gripes e passaram essa herança genética para nós. Infelizmente, numa epidemia, os que nasceram com as características da predisposição (susceptibilidade) passam a ter a chance de serem contaminados e poderão superar, ou não, a barreira seletiva. Embora pareça drástica, esta é a magia da natureza responsável pelo aprimoramento das espécies no planeta. Somos seres humanos, porém, em essência, uma espécie animal.
As diferenças entre a influenza suína e a influenza humana são detectadas com exames laboratoriais que analisam características físico-químicas nas proteínas e nos ácidos nucleicos das preparações virais. Porém, no popular a suína é aquela que ocorre entre os elementos das pocilgas, com prejuízos, principalmente, para os grandes pecuaristas envolvidos com suinocultura industrial. A gripe humana ocorre nos seres humanos, passando de pessoa para pessoa e gerando casos aparentes e casos inaparentes, situação esta também válida nos suínos.
A transmissão do vírus do tipo A-H1N1 acontece quando uma pessoa infectada, com ou sem sintomas, elimina vírus ao falar, tossir ou espirar. Quem estiver por perto recebe os vírus como “presentes”. Neste caso, o social contribui. Já percebeu que as pessoas desejam SAÚDE para quem espirrou? Para pronunciar saúde, a primeira coisa que fazemos é inspirar o ar do ambiente, assim aumenta a chance de as partículas virais do espirro chegarem até as células das nossas mucosas (oral, respiratória ou ocular). Chamamos esse estágio de contágio. O contágio pode evoluir ou não para infecção e a infecção pode aparecer acompanhada ou não dos sintomas. Esta é a magia da Virologia.
No momento, as formas de prevenção são praticamente nulas tendo em vista a classificação dada pelos técnicos da OMS como sendo grau 5, numa escala até 6, para o risco de contágio. No cotidiano, prevenir o contágio é realmente impossível, a não ser para aquelas pessoas, vestidas como astronautas, que trabalham nos laboratórios de segurança máxima. No geral, as pessoas se contaminam, fazem a forma assintomática e saem dizendo por aí que nunca pegam gripe. Essa situação é esclarecida pelos exames de sangue que detectam, no soro das pessoas, a presença de moléculas que servem como registro da infecção que ocorreu. A tais moléculas damos o nome de imunoglobulinas, também conhecidas como anticorpos. Quem conseguiu resistir à infecção viral tem essas moléculas no sangue.
Olhando os registros epidêmicos efetuados pelos órgãos de Controle de Doenças Transmissíveis dos Estados Unidos, que estão disponíveis na internet, é possível verificar a existência de informes relatando casos de infecção por vírus contendo H1 na estrutura. Porém, de uma hora para outra, entram em cena os vírus H1N1 como gripe suína e começa esse estado de histeria coletiva, gerando pânico ao atribuir a essa gripe maior potencial de mortalidade, quando todo mundo sabe que gripe é gripe.
Não existem vacinas preparadas com vírus H1N1. O motivo é fruto de uma trágica experiência americana ocorrida em 1976. Neste ano, o país registrou um caso de morte associada a esse tipo de vírus, situação que levou as autoridades estadunidenses a preverem a possibilidade de uma provável epidemia semelhante à da gripe Espanhola, ocorrida em 1918. Partindo dessa hipótese, imediatamente foi providenciada vacina suficiente para atender toda a nação. A população, ávida por proteção, buscou a vacina como alternativa. Porém, logo começaram a aparecer ações judiciais, associando a vacina de H1N1 com a Síndrome de Guillain-Barré, que resultaram no pagamento de vultosas indenizações e no cancelamento da vacinação”.
Maulori Cabral
Professor do Departamento de Virologia do Instituto de Microbiologia da UFRJ
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